Presidente da Federação de Cineclubes de São Paulo dá sua opinião sobre o fim do Cineart
No início de 2008, o Cineart Glória foi reformado e, em março, reinaugurado com grandes expectativas de melhoras em sua programação de filmes, que, além de cinema, abrigaria outros eventos culturais. Porém, logo após sua reabertura, em abril, o Cineart foi fechado definitivamente para se tornar uma igreja evengélica.
Sobre esse contexto, a equipe do Boca do Lixo conversou por e-mail com o assessor de Relações Internacionais do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros, Felipe Macedo, também diretor do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que, neste ano, chega a 4ª edição.
BOCA DO LIXO – O fim do Cineart marca o fim definitivo dos cinemas de bairro da Grande Vitória. Por qual motivo as salas de exibição de filmes de bairro perderam tanta força através dos anos?
FELIPE MACEDO (FOTO) – A partir dos anos 80, as empresas americanas de distribuição se concentraram em apenas três – em alguns momentos só duas – não por processos de aquisição ou fusão, mas sob a batuta da Motion Pictures Association. Nos EUA, elas continuavam empresas separadas, aqui se cartelizaram. Os territórios foram abolidos e fechados os escritórios regionais. Estruturadas como monopólio, as empresas passaram a ditar os preços sem concorrência: num espaço de tempo reduzidíssimo faliram aos magotes os pequenos exibidores, desapareceram os cinemas nas cidades pequenas, depois nas médias, nos bairros. Enfim, cerca de 80% das salas de cinema fecharam em poucos anos.
O modelo e o controle da distribuição determinam o estado da exibição. O cinema deixou de ser divertimento popular, passou a ser entretenimento para as elites, concentradas em algumas grandes “praças”, com um ingresso muitas vezes mais caro do que o valor histórico até então. A administração da distribuição ficou mais barata e o aumento do ingresso compensou a diminuição de salas.
BL – Praticamente todas as grandes salas de cinema da GV (Paz, Santa Cecilia e, agora, Cineart), mesmo que por uma baita coincidência, viraram igrejas evangélicas. O que você acha desse fenômeno: lugares que eram espaços para a cultura virarem lugares voltados à religião?
FM - Pessoalmente, acho péssimo. A religião é um elemento de alienação ainda pior que o pior cinema possível. Mas, dadas as características dos espaços vagos, e a evolução do mercado imobiliário, grandes espaços de antigos cinemas têm que ser ocupados por estacionamentos, supermercados e outras lojas de grande superfície, como os templos onde se negocia o divino.
Continue lendo ‘Entrevista com Felipe Macedo’