“Vôos estão passando pelo litoral para desafogar a região de controle da área de Brasília”, diz piloto comercial.
Por: Luiz Eduardo Neves – dudunews@hotmail.com.
Desde sempre o homem exercitou o seu olhar em direção aos céus. Mesmo quando ainda era impossível pensar em voar, as ciências de observar os astros se desenvolveram. Tratados e mapas das estrelas guiaram os navegantes por séculos a fio. Sobrevoar as nuvens é coisa nova – há um pouco mais de cem anos, tiramos os pés do chão com balões. Não é mais surpresa naves irem para o espaço. Já até pisamos na lua. Acredite!
Agora um vôo só é notícia quando cai, tal é a normalidade do fato de uma máquina de toneladas passar por nossas cabeças. Até porque temos mais o que nos preocupar neste apertado tempo pós-moderno – trabalho, escola, relacionamentos familiares e amorosos, poluição visual e sonora das cidades, grande quantidade de informações por meio das mídias. As estrelas ou um fundo azul anil saem do foco em meio a tantas coisas “mais interessantes”. Na era da tecnologia da informação, a funcionalidade dos astros caiu em desuso para dar lugar a satélites, GPS e sites com mapas do mundo inteiro em verdadeiras metrópoles virtuais.
Será que algo ainda pode voltar os olhares das pessoas para cima? Sim, e não são OVINIs. Acerca de 5 ou 6 meses, rastros de fumaça nos céus da Grande Vitória aparecem com uma freqüência diária. Coisa que, antes era exclusiva da Esquadrilha da Fumaça, virou um espetáculo curioso no cotidiano do capixaba.
Como tal fato começou a acontecer de uma hora para a outra, nas ruas da cidade se pode ouvir várias versões sobre os tais rastros deixados pelas aeronaves. Para o radialista, Eduardo Vionet, 28, o fenômeno é causado pela mudança nas rotas dos vôos internacionais. “Agora eles estão passando pelo nosso litoral, já que vem por aí um novo aeroporto mesmo”, opina Eduardo.
O turismologo, Fred Azevedo, 52, tem a mesma opinião do radialista, porém, ressalta a importância dessa mudança em relação ao turismo: “Vitória fica entre o eixo Salvador/Rio de Janeiro, consequentemente isso pode refletir para o turismo da nossa capital. Com isso, o trânsito turístico também passa a acontece aqui, e não só nas outras capitais”.
Ainda supondo, para a dona de casa, Maria de Fátima da Silveira, 47, as marcas deixadas pelos aviões têm a mesma procedência das produzidas pelos acrobatas aéreos. “O que faz isso é a fumaça expelida pelas turbinas dos aviões”, afirma Fátima. E reclama, “não adianta eu deixar de poluir com meu carro se um “bichão” daquele acaba com a camada de ozônio 30 vezes mais”.
Sobre a questão ecológica, tem gente achando que a coisa está mais feia ainda. “Com a freqüente e maciça poluição através dos anos, a camada de ozônio está mais fina. Sendo assim, as aeronaves com capacidade de trafegar em maiores altitudes cortam essa proteção natural contra os raios solares, que está prestes a acabar”, acredita Danilo Venturote, 29, estudante universitário.
A verdade sob o céu de brigadeiro
As verdades podem ser criadas a partir de “achismos” quando não se tem notícia dos fatos. Porém, quem tem acesso a informação correta não vê motivo de tanta discussão. É o caso do piloto comercial Bruno Mattos Fassarella que, ao ser questionado sobre o objeto da reportagem, diz ser obvia a resposta: “A causas desses rastros é uma transferência das rotas de vôos internacionais e domésticos, que antes passavam pela região Central”.
O motivo para tal mudança, segundo Bruno, é devido ao excesso de tráfego para os controladores daquela região. “Houve a necessidade de dividir um pouco desses vôos. E agora alguns estão passando pelo litoral para desafogar a região de controle da área de Brasília”, informa o piloto.
No entanto, até mesmo o profissional da área não tem informações exatas sobre a data da alteração. “Só não sei ao certo desde quando. Acho que do final do ano passado para cá”, supõem Bruno.
Sobre o fenômeno dos rastros, o engenheiro elétrico e físico, Alfonso Indelicato, explica que o escape das turbinas quando entra em contato com uma atmosfera fria e úmida, a cerca de 11.000 metros de altitude, gera a condensação e forma nuvens. “Aquilo ali é nada mais nada menos do que nuvens”, observa o engenheiro. “O ar quente do motor sai e bate num ar com temperatura baixíssima, 60 graus negativos, por exemplo, e esse contato forma a condensação”, esclarece Alfonso.
O termo técnico das trilhas criadas pela reação física do contato do gás das turbinas com o ar frio são as chamadas trilhas de condensação, que também provocam poluição. “Já é comprovado, polui sim”, afirma Bruno.
As assessorias de imprensa da ANAC e da Infraero foram acionadas, por meio de telefone e e-mail, para esclarecimentos sobre o tema da reportagem, porém, depois de um mês de espera por respostas, até o fechamento da matéria nenhum dos órgãos se manifestou.
Várias teorias estão envoltas aos rastros das aeronaves que agora sobrevoam nosso céu. Tanto faz, o importante é olharmos novamente para cima ao invés de procurarmos algo perdido no chão. Os jatos podem ser sinais de esperança, pois devemos observar que, além das nossas cabeças, existe um mar de nuvens num fundo azul iluminado pelo sol.
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Todas as fotos e vídeos foram capturados com celular.