Os novos caminhos da ciência na boca do povo.
Por Luiz Eduardo Neves – dudunews@hotmail.com
Nesses dias, andando pelo Centro de Vitória, em meio a poluição sonora e a um mar de gente num vai-e-vem frenético, coisa típica do espaço urbano pós-industrial, parei frente a uma faixa de pedestres esperando o sinal fechar para em seguida atravessar a rua. Tantas informações poderiam ter me chamado a atenção – a quantidade de carros passando, as propagandas, os prédios –, mas o que aguçou os meus sentidos foi a discussão entre dois ambulantes sobre a vida e a morte.
Já reparou quando tem tiroteio ou acidente de carro como há uma aglomeração de curiosos ao invés de todo mundo sumir? Pois é, eu faço parte da massa. Fui conferir então os DVDs da banca de um deles só para escutar a conversa mais de perto.
“Ninguém tem o direito de matar o outro para se salvar”, dizia o vendedor de DVD, um jovem senhor de pele morena aparentando seus 30 e poucos anos. Já o outro, com sua banca cheia de “traquitanas” eletrônicas made in China, tenta responder a altura: “A vida só é vida quando a mulher “pega barriga”. De imediato o outro retruca, “só Deus sabe quando começa e quando acaba a vida”. Logo percebi que eles tratavam de um tema em voga durante todo o ano passado e no início deste, a utilização de células-tronco embrionárias na medicina.
Além de se multiplicarem mais facilmente, as células embrionárias são muito mais versáteis do que as adultas. Elas têm a capacidade de se transformar em qualquer um dos 220 tipos de células do organismo. Por isso, é a grande esperança no tratamento de diversas doenças – problemas cardíacos, derrames, diabetes, disfunções neurológicas e traumas na medula espinhal. A esperança, porém, está cercada de questionamentos éticos. Usá-las em experiências significa matar embriões humanos – o que, do ponto de vista religioso, representa um atentado à vida.
Assim como os dois ambulantes – o debate sobre o quando se inicia a vida humana é discutida por religiosos, cientistas, formadores de opinião, poderes constituídos do Estado, população, enfim, por todos, desde os tempos incontados pela história. Para o fundador da Psicologia Social, Gustave Le Bon, “muitas vezes distintas nos seus esforços, crenças e opiniões pertencem, no entanto, à mesma família”, ou seja, não são suscetíveis de provas concretas ou conclusões.
O mesmo cabo de guerra tencionado nas ruas de Vitória divide o mundo. O presidente americano George W. Bush é opositor ferrenho do uso de embriões humanos. Há seis anos, para agradar aos cristãos fundamentalistas, parte de seu rebanho eleitoral, ele proibiu o financiamento governamental das experiências nos EUA.
No Brasil, o Supremo Tribunal Federal – STF, em março deste ano, julgou inconstitucional o Artigo 5º da Lei de Biossegurança, que prevê a liberação das pesquisas no país. O ministro do STF, Carlos Alberto Menezaes, argumentou que a matéria é controvertida, sendo preciso mais tempo para se analisar o tema. Porém, no fim do mês de maio, o julgamento final sobre a Lei em questão culminou na autorização das pesquisas de células-mãe, como também são chamadas.
A polêmica religiosa não é a única pedra no sapato do novo milagre da ciência. Com já quase uma década, os estudos persistem nos problemas de manipulação, pois até hoje não se conseguiu encontrar um mecanismo para controlar o ritmo com que elas proliferam. As células-tronco embrionárias se multiplicam tanto e tão rapidamente, podendo dar origem a tumores malignos.
Com o sol queimando meu rosto, logo deixei de lado o DVD pirata do “Kung Fu Panda”, e busquei as horas no visor do celular. Saí de cena sabendo que o embate entre os camelôs não haveria vencedor. Quando percebi, já atravessava a rua, pensando, como Rousseau, se haverá “uma idade na qual o homem individual desejaria parar (…); e esse sentimento deve constituir o elogio dos teus primeiros ancestrais, a crítica dos teus contemporâneos e o espanto dos que tiverem a desgraça de viver depois de ti”.