Arquivo para Novembro, 2008

O outro lado da bolha

Por Raquelli Nataleraquellinatale@yahoo.com.br

bolha imobiliariaOs comentários sobre o crash do sistema financeiro americano alarmam a população quanto aos efeitos catastróficos que o mundo poderá sofrer. De certa forma, calcular perdas durante uma crise é mais fácil do que enxergar benefícios, mesmo porque apontar ganhos num momento de tensão pode parecer uma prática doidivanas.

A longa expansão mundial produziu atividades semelhantes às bolhas em tempos atrás. Entre as que marcaram história temos a bolha das ferrovias em 1880, a Wall Street em 1929, a da internet em 2000 e, por fim, a bolha imobiliária vivida agora. Todas tiveram um tempo de vida num ciclo de negócios que repetem o mesmo padrão: nascem, crescem desordenadamente e morrem.

bola de cristalNesta perspectiva, deve-se ressaltar que os estouros das bolhas que causaram transtornos financeiros, antes, trouxeram grandes benefícios. A bolha ferroviária, por exemplo, possibilitou o transporte rápido e construção de marcas como Coca-Cola. A de 1929 trouxe a criação de órgãos de regulação do mercado de capitais e do sistema bancário e em 2000 tivemos a popularização do e-mail, do comércio eletrônico e a criação do Google.

Embora a crise americana esteja longe do fim, podemos citar de antemão os avanços do capital humano que ela proporcionou como a construção de infra-estrutura exuberante e a redução da miséria no mundo. Só no Brasil, 20 milhões de pessoas emergiram da pobreza, contra 400 milhões da China. A Índia passou a deter 65% do mercado mundial de tecnologia da informação e 46% do de Call Center. A República Checa duplicou a produção de automóveis, entre 2004 e 2007.

Olhando por esta óptica, as bolhas são necessárias à dinâmica do capitalismo. Segundo o escritor de negócios Daniel Cross “as bolhas são fenômenos econômicos recorrentes e, contrariamente ao que pode sugerir o senso comum, são benéficas mesmo após seu estouro”.

De acordo com os estudos de Cross, as crises impulsionam os próximos ciclos de prosperidade, preparando-nos para novas fases de exuberância econômica.

bolha11Dessa forma, o impacto do estouro das bolhas pode ser significativo. No caso do Brasil, a crise amenizou problemas, pois desaqueceu a demanda por crédito e commodities, tornando-a menor e mais sustentável. Isso ajudou a controlar a inflação, propiciando maior estabilidade financeira.

Outro efeito positivo é que durante o crescimento das bolhas muitas marcas se consolidam. Devido ao investimento em massa numa única veia mercadológica as empresas tendem a trabalhar com mais propagandas e promoções para alcançar o melhor market share (espaço no mercado). Essa infra-estrutura abstrata construída permanece inabalada e não se esfarela com o resto das falências disseminadas.

De fato, o capitalismo mundial produz prosperidade para todos, mas de tempos em tempos dissipa-se em crises globalizadas. Não queiramos nós fazer parte somente dos momentos afortunados, pois a história já nos mostrou que o que pavimenta os ciclos venturosos são momentos de depressão. Portanto, é, sem dúvida, sinal de grande sabedoria preparar-se para estes momentos e discernir na turbulência o melhor que se pode engendrar.

Raquelli Natale é publicitária.

Pequenos clássicos capixabas

Tendo em vista a dinâmica contemporânea do ato do registro frenético de nosso cotidiano para posterior divulgação em canais midiáticos e de relacionamento, como o Orkut, fotologs e blogs, encontrei posts capixabas que já são hits no YouTube.

O primeiro é o curtíssimo “Pilota de Fulga”.  O vídeo mostra a derrocada da menina Klarice ao tirar onda com a sua motocicleta, acelerando-a até uma esquina e, em seguida, caindo ao bater num carro por conta de sua desatenção. Distração essa causada por conta de uma breve pose para a máquina que registrava toda a cena.

O acidente de Klarice já foi repostado por vários avatares e visto pelo menos umas 160.0000 vezes. Um verdadeiro hit by Cocal, bairro do município de Vila Velha, no Espírito Santo.

A segunda sessão da busca pela audiência alheia para a própria novela da vida privada é o nascimento da menina Elis, cujo pai disponibilizou 1min49seg de seu nascimento em rede mundial. O post já alcançou as 66.059 exibições desde o dia 5 de agosto deste ano até agora.

O mal da pós-modernidade

Os seus 15 minutos de fama podem estar a uma tecla do celular ou no upload de um vídeo caseiro qualquer no YouTube.

Por Luiz Eduardo Nevesdudunews@hotmail.com

multidao21

Mundo moderno, gente moderna, lógica moderna. Na verdade, o termo para adjetivar os sujeitos da frase anterior deve ser pós-moderno. Ou seja, tudo aquilo que perpassa por esses tempos atuais – uma era mais voltada para o cognitivo e menos para o repetitivo.

Um dos marcos para tal mudança está na segunda metade dos anos 70, quando a televisão deixa de ser um suporte com sua única função: ser assistida. Os avanços da tecnologia, que introduziram as transmissões via satélite, a padronização do sistema VHS e os serviços de cabo bidirecionais, permitiram o início da interatividade.

O indivíduo pós-industrial continua individualista, porém, como a geração anterior, os personagens do novo milênio ainda vivem num habitat feito para a massa. No entanto, o sujeito tenta dar o seu último suspiro.

As engrenagens de um tempo em que o trabalhador termina o dia com a alma cansada e com o corpo mole, pronto para ligar a TV e se deixar levar, também abrem espaço para outra opção: o computador – aparelho ainda não acessível a maioria, porém mais atrativo por combinar, além do audiovisual, a possibilidade de interação. E interação hoje é fazer parte do processo de construção da informação, é fazer parte da mídia, é aparecer.

bruceleecellphoneO desenvolvimento de aparelhos eletrônicos e, até mesmo, a hibridização de funções em um só objeto – cite-se o celular com suas multifacetas (telefone, câmera filmadora, câmera fotográfica, MP3 player, rádio e etc) – ampliam e democratizam o poder de captura de momentos do real para o virtual, mesmo para aqueles sem nenhuma habilidade como fotógrafo ou cinegrafista.

As pessoas não querem apenas falar daquilo que, há uns 10 anos, não tinham chance de fazer – opinar sobre alguma notícia no jornal, por exemplo, ou contribuir com o conteúdo de tal mídia. O ser contemporâneo precisa ser a manchete, a capa da revista, o astro da novela. Todos querem ter os seus 15 minutos de fama.

Entretanto, é realmente difícil fazer de conta que não acontece nada e viver a vida achando estar fora do processo de espetacularização do cotidiano. Preste atenção no conteúdo dos noticiários. A máquina que pauta o nosso dia-a-dia funciona com o seu combustível, o sensacional e o trágico. E quanto mais melhor. Alguém assassinado por apenas um tiro não é notícia. Sem contar os escândalos da semana. Alguém ouviu falar do caso da menina Isabela nas últimas semanas?

O mal desses dias pós-modernos pode ser a busca pela fama a qualquer custo, de forma vazia, sem motivo ou arte alguma, através dos Big Brothers e Ídolos, que enchem os olhos de milhões de pessoas sedentas por um pedaço da vida alheia.

Porém, ao desenvolver a habilidade com as tecnologias da comunicação, como a gravação de vídeos digitais e a postagem de artigos em blogs, o “homem outdoor” vai em busca da sua visibilidade.

É um grito contra o monopólio e a centralização da produção da informação. Deixamos de ser apenas receptores para subir ao posto de produtores.

matrixuruburei1No entanto, essa liberdade de publicações que a internet oferece, acarreta no problema da veracidade, da garantia quanto a qualidade da informação. A cada minuto, novas pessoas assinam a internet, novos computadores se interconectam, novas informações são injetadas na rede. Quanto mais o ciberespaço se estende, mais universal se torna. Novas maneiras de pensar e de conviver estão sendo elaboradas no mundo das telecomunicações e da informática.

Tais experimentações, no campo dos veículos de comunicação tradicionais, como o rádio e a televisão, estão aquém das possibilidades de interface e funções proporcionadas pelo computador. Por outro lado, os PCs ainda precisam de desenvolvimento tecnológico, pois há limitação no que diz respeito à flexibilidade oferecida pelo controle remoto da TV, por exemplo.

As divergências da tecnologia da informação se expandem ao campo humano. Em meio a passagem de tempo entre o analógico e o digital, o usuário contemporâneo convive com o dilema de manter-se ou não integrado a uma cultura de massa limitada, estagnado na tradicional recepção passiva.


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