Cine Hollywood

Cineart, em Vila Velha, cria mostra de filmes para atrair público e promove volta ao tempo dos cinemas de bairro

Por Gustavo Chelujelcheluje@redegazeta.com.br

cineartO único cinema de bairro na Grande Vitória pode até sofrer com a falta de público e a concorrência das salas de shopping, mas resiste. Prova disso é o projeto Sessão Cultural Cineart, mostra de clássicos nacionais e americanos, exibidos gratuitamente em DVD, durante os finais de semana até fevereiro do próximo ano, no Cineart da Glória, em Vila Velha.

O público, a julgar pela sessão acompanhada pelo Caderno 2, gostou da idéia. “Quando um cinema de bairro fecha as portas, o que acaba é a identidade cultural de uma localidade e não apenas uma sala de projeção. Por isso, estou apoiando a iniciativa e pretendo participar da mostra semanalmente”, afirma a cabeleireira Luciane Luiza dos Santos, 36 anos, uma das 40 pessoas que assistiram a sessão do clássico do cinema mudo, “Em Busca do Ouro” (1925), dirigido por Charles Chaplin.

Também presente na sessão, Fábio de Assis, 29, comerciante e morador do bairro, destaca o caráter social das salas de bairro. “Com o fechamento dos cinemas, a população menos favorecida – e a mais carente de cultura – acaba ficando com poucas opções de lazer. Muitos não têm condições de pagar um ingresso de R$ 15”, acredita, elogiando a programação do evento, que exibirá mais de 70 títulos.

O filme em cartaz hoje é “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1977), longa de Bruno Barreto que ainda detém o título de produção nacional mais vista na história do cinema brasileiro, com 12 milhões de espectadores. A sessão começa às 10h30.

Platéia

ze do caixãoDeixando a fantasia de lado e passando para a frieza dos números, 40 pessoas na platéia é muito pouco, principalmente para uma mostra que tem pretensões de aumentar o fluxo de público da sala.

“O festival ainda está no início. O efeito boca-a-boca atrairá mais espectadores. Também vamos exibir filmes populares, como uma mostra dedicada a Zé do Caixão, e os números devem mudar logo”, acredita o proprietário do Cineart, Fernando Almança. “Estou fazendo a minha parte. Não recebemos apoio da iniciativa privada e de nenhum órgão público. Se ‘eles’ não se preocupam em manter viva a tradição dos cinemas de rua, não posso fazer nada”, desabafa o empresário.

Se hoje praticamente não existem mais salas de projeção nos bairro na Região Metropolitana, a realidade era outra há 40 anos. “Entre as décadas de 50 a 70, a Grande Vitória tinha 11 cinemas, com sessões sempre lotadas. O público disputava os ingressos para assistir a clássicos, como ‘Três Homens em Conflito’ (1965), de Sérgio Leone”, relembra, com nostalgia, Marcelo Abaurre, 61, filho de Dionysio Abaurre, um dos empresários que administrava as salas do consórcio Grupo Vitória, na época.

O faroeste clássico, em questão, foi exibido no Cine Juparanã (tradicional sala do Centro de Vitória que fechou as portas em 1980, após 20 anos de atividade). “Quem conseguia um bilhete para entrar, vibrava. Já a multidão que ficava do lado de fora, voltava para casa incorformada”, complementa Marcelo.

Sessão nostalgia

O empresário – que guarda em sua casa poltronas e aparelhos de projeção das salas desativadas – relembra com tristeza o fechamento do último cinema de seu consórcio, o São Luiz – localizado nas proximidades do Parque Moscoso, centro de Vitória -, em 1996. “Foi um momento difícil. Fomos obrigados a fechá-lo, pois não dava mais para arcar com os prejuízos”, relata.

Os culpados pela crise? Abaurre sabe relacioná-los com exatidão. “O drama começou no início dos anos 80. A valorização imobiliária aumentou os impostos, deixando os preços impraticáveis. Além disso, a chegada do videocassete começou a ‘prender’ as pessoas em casa”, enumera, dizendo que a extinta Embrafilme também contribuiu com o fechamento das salas, ao impor uma “pesada” política de proteção de mercado. “Éramos obrigados a exibir filmes nacionais durante seis meses no ano.

Infelizmente, a produção brasileira não supria as necessidades impostas pelo governo, em termos de qualidade e quantidade de títulos. A população, cansada de ver fitas pouco atrativas em cartaz, deixou de freqüentar os cinemas”, avalia.

Revitalização. E não há nem sobra de mudança para essa situação. O projeto de revitalização do Centro, realizado pela Prefeitura de Vitória, não prevê reabertura, muito menos construção, de salas de cinema. “Trabalhamos em parceria com instituições financeiras públicas. Infelizmente, durante o planejamento, nenhum deles reservou parte da verba para o audiovisual”, confirma Anna Karine Bellini, uma das coordenadoras da estratégia de revitalização urbana da Secretaria de Desenvolvimento de Vitória. “Também queremos reativar a cultura do centro, não só o comércio e a arquitetura. Reabrir as salas de cinema seria primordial. Portanto, estamos abertos a propostas da iniciativa privada para ajudar a suprir a carência desta área”, explica.

A estratégia – unir o poder público com o setor privado – deu certo em São Paulo. Com praticamente todas as salas de exibição do Centro fechadas, a prefeitura fez acordos de incentivos fiscais com empresários e membros do circuito exibidor. Tudo para reabrir espaços tradicionais da região, como o Cine Olido (hoje atuando como centro cultural após seis anos desativado).

Ainda este ano, será reinaugurada mais uma sala (o Cine Marrocos, que manterá a arquitetura dos anos 50 e seus vitrais em arabesco). Ainda em 2006 começam as construções do primeiro multiplex de rua da cidade (que será instalado no Cine Marabá, na Avenida Ipiranga). Exemplo melhor para os governantes e empresários capixabas, impossível.

No túnel do tempo

carlos gomesInício. O Cine Éden (localizado onde hoje está o Teatro Glória), primeira sala de exibição de Vitória, foi inaugurado em 13 de janeiro de 1907.

Sucesso. Na década de 30, até o início dos anos 60, o Teatro Carlos Gomes (foto ao lado) também atuava como cinema. O espaço exibiu, no Estado, a primeira versão de “King Kong” (1933).

Auge. Em 1956, a Região Metropolitana chegou a ter 11 cinemas de rua: Carlos Gomes, Glória, São Luiz, Santa Cecília, Vitória, Jandaia e Trianon, em Vitória; Capixaba, American e Continental, em Vila Velha; e Hugolândia, em Cariacica.

Ao ar livre. O único drive-in (cinema ao ar livre, em que espectadores assistiam aos filmes dentro do automóvel) do Estado foi instalado na Praia de Camburi, em 1976. O espaço não agradou ao público, tanto que funcionou por apenas seis meses.

Decadência. O fechamento da maioria das salas de bairro se deu entre 1980 e 1983. Em 80, os cines Vitória, Jandaia, Odeon (em Vitória); Dom Marcos (em Vila Velha); e Colorado (Cariacica) encerraram suas atividades. Em 1981, foi a vez do Cine American (Vila Velha). Já 1983, marcou o fim do Hollywood (Cariacica) e Aterac (Vila Velha).
Fonte: “História do Cinema Capixaba” (1988), do escritor Fernando Tatagiba.

Esta reportagem foi publicada em 07/09/2006 pelo Caderno 2 do jornal A Gazeta antes do fechamento definitivo do cinema do Cineart,  em abril de 2008.

Em breve no Boca do Lixo, artigo sobre o fim dos cinemas de rua da Grande Vitória.

Confira o trailer de “Dona Flor e seus Dois Maridos”, filme exibido no extinto projeto Sessão Cultural Cineart:

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