Fim de uma era

Sala CineartHá quase um ano, o último cinema de bairro da Grande Vitória fechou as suas portas para virar uma igreja evangélica

Por Luiz Eduardo Neves – dudunews@hotmail.com

O Cineart Glória – símbolo de resistência por ser o último cinema de bairro da Grande Vitória – está fechado desde o início do ano passado. Depois de 55 anos como ponto de entretenimento e cultura, a sala foi alugada para tornar-se um templo religioso.

Segundo o último administrador do Cineart, o cineclubista Marcos Valério Guimarães, “a sala parou de funcionar em abril de 2008. No entanto, tínhamos fechado em setembro de 2007 para reformas e reabrimos em março do ano seguinte. O problema foi o período em que reinauguramos – na entresafra de lançamentos. Além da dificuldade de conseguirmos cópias desses filmes”, o que torna a concorrência, com as salas de shoppings, desleal.

Porém, mesmo quase um ano após seu fechamento, muitos freqüentadores e moradores do entorno nem sabiam do fato. Os que manifestaram alguma opinião sempre citavam a grande vantagem do cinema: o baixo preço.

Para Luiz Danilo Evangelista Venturotti, 30 anos, “muitas pessoas não tinham condições de pagar os preços estipulados nos shoppings, então o Cineart era uma opção de divertimento para os menos previlegiados”.

multiplexO Cineart ainda sobrevivia por atender uma parcela mais popular do mercado, que buscava preços mais baixos. Além disso, apesar de um pouco atrasada em relação ao lançamento, eram exibidas as mesmas grandes produções cinematográficas dos multiplex.

“Muita vezes eu acabava enfrentando as filas e preços enormes dos shoppings, pois tinha o problema do filme chegar bem depois”, diz a universitária Janine Pozes, 21 anos. “Mesmo assim, de vez em quando, valia a pena curtir o clima família e a comodidade de um cinema de bairro”, complementa.

“Este atraso não era grande desvantagem assim em relação à quantidade de público, pois os DVD’s alternativos ainda não tinham uma expressão tão significativa até meados de 2006”, explica Marcos. Atualmente 90% das mídias piratas apreendidas pela polícia são DVD’s.

Já o presidente da federação Paulista de Cineclubes, Felipe Macedo, acredita que o problema é estrutural. “A partir dos anos 80, estruturadas como monopólio, as empresas distribuidoras passaram a ditar os preços sem concorrência. Cerca de 80% das salas de cinema fecharam em poucos anos. O cinema deixou de ser divertimento popular, passou a ser para as elites, concentradas em algumas grandes “praças”, com um ingresso muitas vezes mais caro do que o valor histórico até então. A administração da distribuição ficou mais barata e o aumento do ingresso compensou a diminuição de salas”, analisa Felipe.

O outro lado

Vários motivos cercam os fechamento das pequenas e isoladas salas de exibição que haviam nos bairros da Grande Vitória. Este fenômeno não é um fato isolado do Espírito Santo, é um dado nacional. O que causa curiosidade é a nova utilização dessas salas no Estado: viraram templos evangélicos.

Tendo em vista que, na última década, a taxa de crescimento da igreja evangélica superou em quatro vezes a da população do Brasil, é lógico o aumento de locais para atender seus cultos e fiéis.

No Censo 2000, realizado pelo IBGE em 2003, chegou-se a 30 milhões de evangélicos no país, ou seja, 17% da população. Já um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) apontou que o Espírito Santo alcançou o primeiro lugar em percentual do segmento religioso no país, ou seja, quase um terço (27,38%) dos capixabas freqüentam igrejas evangélicas.

missão evangélicaNessa esteira, há 4 meses, o imóvel onde ficava o Cineart é um templo da Missão Evangélica, Ministério Luz para as Nações, uma das ramificações da Assembléia de Deus.

Segundo o responsável pelo templo, pastor Antônio Carlos Cardim, a Missão funcionava num espaço onde cabiam no máximo 700 pessoas. Porém, com o aumento do número de freqüentadores, a antiga sede não comportou os quase mil membros do ministério.

“O principal motivo para alugarmos o local foi a sua estrutura propícia para a realização dos cultos. Poltronas confortáveis, ar condicionado, aparato audiovisual e, principalmente, o tratamento acústico, evitando reclamação dos vizinhos em relação ao barulho”, explica o pastor.

Mudança de hábito

Na contramão do crescimento de adeptos à religião evangélica no país, o público-potencial dos cinemas tem escolhido outras formas de consumir a cultura audiovisual.

Uma pesquisa encomendada pelo Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Rio de Janeiro para o instituto de pesquisa Datafolha, realizada em 10 Estados, de Norte a Sul do país, analisou os hábitos de consumo dos consumidores de entretenimento audiovisual.

Ficou constatado que a maioria dos entrevistados preferem assistir filmes por meio de DVD’s (44%) e pela TV (25%), enquanto outros 23% vão ao cinema.

Em relação a frequência que essas pessoas costumam ver seus filmes numa semana é de 58% (DVD) contra 5% (cinema).

The end

cineartFica nítida a mudança de comportamento do brasileiro no consumo de produtos culturais, como os filmes. A religião e a pirataria apenas se apropriam de brechas deixadas pelo mercado de salas de exibição e distribuidoras cinematográficas que afastam o seu público potencial ao cobrarem altos preços pelos serviços oferecidos.

Mesmo com mais de 60% dos entrevistados para esta matéria desconhecerem ou não gostarem das instalações do Cineart – por conta da sua estrutura clássica ou pelo atraso da exibição das películas – a sala deixa saudade pelo fato de ser uma alternativa a menos para quem foge dos passeios aos shoppings. O que já é uma grande desvantagem.

O ano de 2008 representa o fim de uma era no Espírito Santo. Uma época romântica na qual quase todos os bairros tinham o seu cineminha, onde, por algumas horas, todos mergulhavam numa realidade de sonhos.

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