O Intelectual Orgânico

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O programa Povo na TV foi o pioneiro no Estado do Espírito Santo em buscar a participação do público, dando espaço para reclamações e sugestões de pauta, assim como, por exemplo, na coluna “Qual é a Bronca?” do jornal A Tribuna

Por Francisca Selidonha Pereira da Silva – franciscasp@hotmail.com

A ação do intelectual ampliada, diferente, capaz de um caráter formulador e de despertar consciências e transformar a sociedade em que vive. Essa é a perspectiva do teórico italiano Antônio Gramsci. A proposta desse artigo é verificar a presença desse intelectual no Programa Povo na TV da TV Educativa do Espírito Santo. O programa foi criado no Governo Albuíno Azeredo e ficou no ar no período de 1991 a 1994.

Para Gramsci o intelectual orgânico é “o que age, que atua, participa,  ensina, organiza e conduz, enfim, se imiscui e ajuda na construção de uma nova cultura, de uma nova visão do mundo, de uma nova hegemonia”. Para ele, esse intelectual se contrapõe àquele que fica preso às teorias, mas não se aproxima da prática. Gramsci não apenas defendeu o engajamento do intelectual, mas formulou um novo modelo, construindo um método, que tirou os intelectuais “de trás da cortina e os colocou no proscênio da ação política. Gramsci deu ao intelectual uma outra dimensão, constituiu-o em objeto de análise e de pesquisa, fazendo com que, desde então, não se separe pensamento e ação”. Um só funciona com o outro.

povo_tv_4O programa foi criado num período efervescente da política capixaba, quando houve valorização da comunicação como recurso de relacionamento do poder público com o cidadão comum.  Esse programa funcionou como uma praça pública mediática, onde o cidadão comum tinha a chance de se encontrar com os representantes do poder público e apresentar as suas reivindicações. Em alguns casos, o programa facilitava a execução de obras e melhorias nessas comunidades. O entrevistado da praça, dos bairros, por um instante rompia as barreiras e as distâncias dos meios de comunicação e tinha acesso naquele momento à voz, tornando-se ator no processo, capaz de modificar de alguma forma a sua realidade social ao levar às autoridades presentes no estúdio e ao denunciar à população em geral, aos telespectadores, as suas reivindicações de melhorias para o bairro ou para a qualidade de vida de um modo geral.

O repórter funcionou como facilitador desse processo de mobilização e de consciência das classes populares. Criou as condições para esse despertar de consciência que rompeu as barreiras impostas pela burocracia do poder público e confrontou as autoridades ao vivo através da mídia que se tornou um espaço público reconfigurado na contemporaneidade. O jornalista personificou o intelectual orgânico preconizado por Gramsci. Saímos daquele conceito tradicional do intelectual como homem das letras e partimos para a formulação de Gramsci como quem age.

A proposta do programa era apresentar registros e memórias desse instante de transformação, interação e reelaboração da mensagem pelo receptor que pôde participar das várias etapas do programa através da interferência e oportunidade disponibilizada pelos jornalistas que elaboravam o programa às classes populares de se tornarem agentes e sujeitos transformadores de sua comunidade. Inicialmente, apresentando a sua realidade social, os seus problemas e demandas do bairro que se tornavam a pauta, o mote principal do programa. Depois mais uma vez esse receptor se tornava sujeito durante o programa quando fazia exposição diante das câmeras ao vivo, sem edição ou cortes, de sua realidade e seus questionamentos, numa busca de respostas diante das autoridades também ao vivo no estúdio, num confronto e interrelação de forças. Nesse momento, esse espaço mediático se torna o próprio espaço público, onde o que vale é a força do argumento, do diálogo, da retórica. O verdadeiro espaço público citado por Habermas é transferido para os meios de comunicação.

povo_tv_3Esse programa foi escolhido por ser representativo do Governo Albuíno Azeredo, quando houve grande valorização da comunicação e do marketing político. Queremos mostrar que o governador da época se utilizou de recursos historicamente explorados por vários governantes de encenação e dramatização visando a aproximação com as classes populares e a massa. Luis XIV em seus divertissements usava a ópera francesa e a comédia como recursos políticos.  “O grande ator político comanda o real através do imaginário. Ele pode manter em uma ou outra destas cenas, separá-las, governar e produzir o espetáculo”.

Povo na TV  foi criado em 1991, na TVE/ES, seguindo o modelo orientado pela TV Cultura de São Paulo. A proposta era de desenvolvimento de um programa ao vivo com participação popular, apresentando as reivindicações das comunidades e estabelecendo um canal direto com as autoridades responsáveis pela resolução de problemas. O programa foi criado num período de transição na direção da TVE, quando o Governador Albuíno Azeredo assumiu e nomeou a jornalista Jane Mary de Abreu para Diretora Presidente da RTV/ES (Rádio e TV/ES).  Nesse período, a emissora adquiriu o primeiro equipamento microonda para transmissão externa ao vivo do Estado.

A principal característica desse programa foi funcionar como espaço público democrático onde o cidadão comum tinha voz e podia apresentar as suas demandas populares e obter resposta por parte das autoridades, em discussão ao vivo. Esse diálogo com as autoridades, em condições normais, seria dificultado pela burocracia dos órgãos públicos.

Arendt alerta para o risco da burocratização da vida pública atrair a violência. É que na burocracia desenvolvida não há ninguém a quem se questionar, apresentar queixas ou exercer as pressões do poder. “A burocracia é a forma de governo na qual todas as pessoas estão privadas da liberdade política, do poder de agir; pois o domínio de Ninguém não é um não domínio, e onde todos são igualmente impotentes temos uma tirania sem tirano”.

O Povo na TV é de relevância histórica porque foi o primeiro programa de TV do Estado transmitido ao vivo das comunidades e da Praça Costa Pereira. Até aquele momento só era possível a gravação ao vivo do estúdio. Balandier relata que novas técnicas dão ainda mais vantagens ao que ele classifica de “dramaturgia democrática”. E especifica como novas técnicas os recursos de mídia, de propaganda e de sondagens políticas. “Elas reforçam a formação das aparências, ligam o destino dos homens de poder tanto à qualidade de sua imagem pública quanto às suas obras. Denuncia, então, a transformação do Estado em espetáculo, em teatro de ilusão”.  Balandier deduz que o que ele classifica de “teatralidade política” é acentuado pelas circunstâncias e a natureza dos regimes.

povo_tv_2Pudemos enxergar na experiência vitoriosa, porém efêmera, do programa Povo na TV uma saída para a comunicação. O receptor atuando como sujeito e capaz de transformar a sua comunidade e a sua qualidade de vida, descobrindo no espaço púbico midiático – o espaço público da modernidade nos parâmetro de Habermas –  uma alternativa para confronto, interrelação de forças com as autoridades públicas, uma forma de driblar os mecanismos dificultados pela burocracia – pelo o governo de ninguém conforme conceito de Hanna Arendt.  Nesse espaço de luta e busca de hegemonia das classes populares o papel do jornalista, como intelectual orgânico preconizado por Gramsci, agente propulsor de consciência e transformador social, foi fundamental. Sem ele, dificilmente o cidadão comum teria sucesso em chegar até as autoridades e pressioná-las por melhoria através da praça pública mediática, que são os meios de comunicação e, nesse caso específico, a Televisão Educativa do Espírito Santo.

Francisca Selidonha Pereira da Silva é Jornalista e Mestre em História Social das Relações Políticas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Leia aqui o artigo de Francisca sobre o programa Povo Na TV na íntegra.

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3 Responses to “O Intelectual Orgânico”


  1. 1 Francisca Selidonha outubro 16, 2009 às 10:34 am

    Bom dia, Eduardo! Obrigada pela oportunidade de divulgar o meu trabalho! Adorei!!!! Sucesso com seu blog!!!!! Abraços.

  2. 2 selma março 7, 2010 às 3:58 am

    Estava procurando matérias sobre intelectual orgânico, ao ler esta, consegui um conceito muito acessível.
    Gostei

  3. 3 bloseNed-online outubro 3, 2010 às 8:09 pm

    bom comeco


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